sábado, 7 de novembro de 2009

FELICIDADE CLANDESTINA

Pois é, o que é um texto, isolado, sem contexto?
O que é um texto sem a sua interpretação, o que está nas entrelinhas e no subtexto?
Pois bem, estava eu, em uma de minhas aulas do período retrasado de Produção Textual da Profª Patrícia Teles e ela trouxe esse texto, fez uma roda e nos fez trabalhá-lo em conjunto, ela nos deu um tesouro, pelo menos pra mim.
Eu costumo aproveitar ao máximo as minhas aulas, aproveitar pra minha vida.
E nem só essa, mas muitos dos nossos encontros foram proveitosos, e ficamos até amigas, nós alunas, eu e algumas colegas e ela.
Aliás, ela foi super legal num momento em que tive uma crise feia nervosa na faculdade, mas isso é detalhe, ela realmente demonstrou ser uma pessoa legal e que nos queria trazer muito mais que só ensinamentos e tarefas em sala e fora dela.
Enfim, não foi bem da Patrícia que quis abrir o parênteses pra essa crônica, apesar de ser grata por conhecer tal texto através dela, não é o centro do que quero trazer e falar.
Eu me identifiquei muito com a situação.
Quantas vezes não me deparei com a minha felicidade irreal e clandestina?
Não sei se é um mal comum, se muitos cometeram esse mesmo erro, mas sempre manter um motivo aceso pra chamar atenção ou então chegar perto de alguém, nunca fechar um determinado ciclo pela felicidade virtual de que conseguiu uma migalhinha de atenção em resposta, em retorno e muitas vezes não era nada disso, só era um retorno?
Pois é, quantas vezes nos iludimos com tal vivência, ilusão, fantasia?
Apegados aos momentos em que estamos na iminência de conseguir algo e às vezes se conseguimos, a felicidade ou prazer nem é tão grande, até ficamos tristes, pois acabou.
Já pensaram nessa possibilidade?
Que quando lutamos, brigamos por algum objetivo, muitas vezes somos vidrados no caminho e nas dificuldades e se fosse fácil não teria graça, pois conseguiríamos muito rápido?
O que mais dá prazer é a chegada ou a corrida?
Mas até onde essa corrida é saudável, é prazerosa e nos faz bem?
Chega um momento que temos que assumir e fechar, findar ciclos e conseguir o que realmente queríamos.
Já perceberam que em muitas lutas começamos buscar um foco, os caminhos nos levaram pra outros caminhos e tentamos focar naquele anterior, mas não era bem aquilo que deveria ser feito e os sinais demonstram e não seguimos, desviamos e quando vemos não é mais nada daquilo que buscamos é outra coisa sem nem saber?
Quantas vezes solicitamos pessoas por um motivo, mas na realidade queríamos atenção por outros e no meio do caminho a coisa desvia e o contato se vicia até se desgastar pela falta de foco, objetividade e perdemos a nitidez deonde queríamos chegar?
Isso é ao mesmo tempo perigoso quanto doloroso.
Precisamos perder a mania de querermos as migalhas das felicidades clandestinas e buscarmos felicidades cada dia mais reais, não é verdade?

Profª Cristiana Passinato


Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria. 
Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como "data natalícia" e "saudade".
Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia.
Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim um tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato. Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E, completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria.
Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança de alegria: eu não vivia, nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam.
No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.
Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono da livraria era tranqüilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do "dia seguinte" com ela ia se repetir com meu coração batendo.
E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra.
Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados.
Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler!
E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: "E você fica com o livro por quanto tempo quiser." Entendem? Valia mais do que me dar o livro: "pelo tempo que eu quisesse" é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.
Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.
Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre ia ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar... Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.
Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.
Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.

Clarice Lispector. In: "Felicidade Clandestina" - Ed. Rocco - Rio de Janeiro, 1998