terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Boa aluna


Márcia era uma aluna aplicada e sempre sentava-se na frente nas aulas de todos os períodos.
Porém, naquele período suas aulas de bioquímica seriam com um professor que a ela não parecia muito simpático.
João era um professor arrogante, áspero, não era de muito sorriso e logo que entrou em sala fez questão de "tocar o verdadeiro terror" na galera toda.
Márcia o achou de um topete que logo sentou-se desde o primeiro dia no canto da última carteira, e todas as aulas ela participava, mas no meio conversava, pois os colegas não entendiam e ela tentava ajudar a explicar aos outros colegas.
Foi quando um dia ela levou um giz na cabeça, no outro dia o apagador e no último o tênis e daí ela exclamou: "Qual seu problema?".
Ele exclamou no ato: "Eu quero que VOCÊ preste atenção!".
Nisso, Márcia começou a se esforçar e gravar aulas, copiar tudo, comer cada palavra e ter as perguntas todas mais inteligentes e respostas mais prontas aos questionamentos dele.
Estudava com afinco para acompanhar no nível alto em que se ministravam as aulas e aí essa competição virou simpatia, pois todos os dias, João fazia uma determinada gracinha para Márcia, e ao chamar atenção, todos voltavam-se para última carteira para ver o teatrinho dos dois duelando.
Quando surgiram as provas, Márcia ia à sala dos professores, laboratório e tirava sempre dúvidas até que ouviu dele: "Márcia, dou aula sábado..."
Ela não titubeou em dizer: "Não venho à Escola aos sábados..."
Ele não conversou e arrematou como bom sedutor com carinha de carinho: "Mas nem para tirar dúvidas comigo?"
Pois bem, Márcia passou a ir todos os sábados tirar suas dúvidas e quando não tinha, ela arrumava, revirava nos seus livros, anotações, fitas algum jeito de ter questões das mais cabeludas para parecer próxima e inteligente.

E com isso tudo as gracinhas aumentaram, os olhares, os momentos de sorrisos sem graça, a conquista havia sido estabelecida, um canal doce e puro que só poderia dar em algo bonito, pois a admiração e amizade também havia nascido.
Márcia sentia medos de perder a amizade se caso "rolasse um clima", já João armava um clima em algum lugar menos acadêmico e foi quando se encontraram num bar perto da escola, e não pensou duas vezes e mandou um bilhetinho pelo garçom: "Vem sentar aqui na mesa comigo e com meu amigo, quero conversar com você!"
Márcia gelou e pensou: "E agora?"
Mas ela foi, depois de tanta insistência, gestos e tudo mais.
Ela perguntou com cara apavorada e ele engoliu seco sem jeito e disse: "Você poderia passar as notas do conselho que acabei de sair hoje para a turma para mim?"
Márcia disse a ele se era aquilo que ele queria tanto falar e ela pagando aquele mico e reunindo coragem de ir até a sua mesa e ele perguntando do que Márcia imaginava ser?
Márcia saiu furiosa para a mesa dos colegas e dois minutinhos, João que havia ficado sozinho, pois o amigo rumou para sua casa, já estava ao lado de Márcia na mesa dos colegas.
A menina não sabia o que fazer, o que falar, e havia sido também enviado um bilhetinho ao músico para tocar uma música especial dedicada a ela: "Canteiros" que João cantou de olhos fechados no verso em que Fagner dizia: 



"Quando penso em você
Fecho os olhos de saudade
Tenho tido muita coisa
Menos a felicidade"



Quem disse que Márcia resistiu, nada, foi relutante e se fez de difícil e nada esmoreceu e não foi fácil como as outras, mesmo não querendo, mesmo louca de vontade de se entregar e ceder aquele encantado olhar e cantada irresistível, por mais requentada que pudesse parecer, mas era tudo muito natural, e os momentos doces só começaram e a noite foi maravilhosa, mas nada do desfecho que todos torciam e queriam, que seria o beijo, o namoro brotar, pois era com certeza o que João pelo menos desejava, e Márcia sofria com seus medos inexplicáveis, pois o desejo era correspondente ao dele.


Tempo passou, as investidas continuaram, mas com tempo também foram amornando, esfriando, desaparecendo... João cansou de investir e Márcia resistir.


Márcia começou a perceber a situação e resolveu cuidar melhor daquele afeto, e suas surpresas, cartões, escritos, poesias começaram a acontecer, todos na gaveta do amado, sem menor pudor, ela arrumava aliados para suas aventuras doces para surpreender João, que a essa altura já não dava aulas no seu período e os passos foram sendo dados e nada de João corresponder...

Foi quando um dia João encarou Márcia e disse: "Afinal, meu anjo, o que você sente por mim?"



Sabe o que ela disse a João? 


- Não consigo dizer, não sei expressar.


João disse que não entendia, uma mulher feita, com atitude de menina, perdida, com olhar de medo e mãos à boca, roendo as unhas de medo por querer dizer pelo menos o que sente para se aliviar e ter certezas tão requeridas, será que gostava de sofrer e queria só a espera do amor? Será que teria medo de amar? Mas porquê?


Márcia não falou, calou e chorou frente a ele que calado olhava cúmplice e sem palavras.


Ele só complementou: "De nada adianta cuidar de minhas mãos com os sabonetes cheirosos e me regar os dias de lindas palavras se não tem como olhar e dizer o que quer dizer todo dia, então saiba amar para depois me procurar, mas venha a tempo, pois pode me perder".


Márcia demorou... Não mais encontrou nada além do pranto por ter perdido seu grande amor.




Cristiana Passinato