sábado, 27 de fevereiro de 2010

Qual boneca ganhar?

Uma certa vez, no aniversário de Karina, sua mãe deu a oportunidade de escolha a ela de seu presente.
Ela propôs ir à loja e negociou com o vendedor uma proposta a sua filha, para que ela pudesse refletir o que ela realmente iria ter necessidade, por mais que parecesse bobo escolher dessa maneira entre duas bonecas.
E assim que recebeu o positivo do moço propôs a sua filha que ela ficasse uma semana com dois tipos diferentes de bonecas: uma de louça, linda, cara, com uma roupa de grife, até figurinista e guarda-roupa tinha a danada; e a outra uma boneca de pano que o vestido era de trapos, feinha, artesanal, enfim, o oposto.
A menina concordou no ato, uma semana com as bonecas para sua escolha.
Nos contos de fadas que sua mãe contava, sempre ao chegar à meia noite, os brinquedos ganhavam vida, ela tinha esperança que essas novas "filhas" por um tempo falassem algo ou agissem de alguma forma e assim ficou esperando.
Um dia se passou, rezou e nada...
No segundo dia, nada aconteceu...
No terceiro, quando ela não mais tinha esperanças de ver algo, deitou-se e ouviu um barulho: era uma das bonecas se movendo e deixando cair um brinquedo da estante.
De início, Kaká não acreditou, pensou ser um sonho, mas depois teve certeza, a bonequinha de louça andou.
A boneca de pano reclamou:

- Menina, assim ela acorda!

Quando a viram de pé, a de pano se assustou e a de louça fez que não reparou e começou a dançar, cantar, fazer várias peripécias para impressionar a sua possível dona, enquanto a de pano foi se escondendo atrás dos outros brinquedos da estante, e a saltitante bonequinha linda quando menos percebeu estava na pontinha da prateleira e quando ia cair, a sua possível dona a segurou, pois sabia que se caísse, ela quebraria e a mãe zangaria achando que foi sua imprudência ou falta de cuidado com o que nem dela seria ainda.
Depois do susto a menina soltou uma reclamação:

- Bonequinha, você é linda, toda perfeita, dança, canta, mas me deu um susto danado.

A bonequinha retrucou no ato:

- Ah! Mas se me desse mais espaço, uma prateleira só para mim, pois sei fazer coisas que nenhum desses brinquedos sabe e além do mais sou a mais bonita de suas bonecas, sou importada, tenho vestido de grife, um armário cheio...

Nisso a menina deixou a boneca falando e foi procurar a bonequinha de pano que estava escondidinha toda feiosa num cantinho quietinha chorando sem nem um pio. Foi quando Karina a pegou e colocou contra o peito e falou:

- Você vem dormir comigo, foi comportada e é tímida, o que aconteceu que está chorando, é tão fofinha, toda gostosinha, dá até pra abraçar para dormir?

Bonequinha de pano disse a futura dona:

- Eu não sei fazer nada do que ela sabe, fui feita por uma senhora pobre, sou feia e gorducha, mas queria uma dona, todos olham para mim e não me olham, não querem me comprar, mas quando você entrou na loja achei você tão alegre e bacana que pensei que pudéssemos ser amiguinhas.

Foi quando o resto da semana foi feita a mesma coisa... Realmente Kaká deixou uma prateleira livre pra bonequinha de louca, mas dormiu com a de pano e conversava parte da noite e as histórias mais legais que ela já tinha ouvido seriam da bonequinha que a fazia ninar. Até rezar juntinhas de joelhos elas estavam já fazendo.
Foi quando a mãe dela no final de sete dias questionou: e aí, escolheu?
Ela disse:

- Sim, mãe, posso ficar com as duas? Se puder ficaria, mas prefiro a bonequinha de pano. A de louça, se você comprar gostaria de dar para você. 

A mãe e o vendedor falaram da desvantagem e logo lançaram a questão:

- Por que escolheu a de pano, Kaká?

Karina não pensou duas vezes e explicou:

- Mãe, adultos gostam de bibelôs, crianças gostam de brincar e companhia, no caso da de louça que é linda, ela é de louca, pode cair e quebrar, por mais linda e cara que seja, mas a de pano é fofinha, eu brinco, cai no chão, posso levar onde quero que ela será sempre a minha bonequinha amiga e companheira, até dormir abraçadinha posso. Não consigo fazer com a de louça que é intocável, é para ser vista de longe e admirada só, como gente grande gosta.

Os dois ficaram pasmos com tal reflexão, pois a mãe não imaginava que o simples fato de uma escolha fosse causar essa maturidade toda e análise, mas o resultado surpreendeu e a mãe comprou as duas bonecas para Karina, mas a que realmente é amiga de verdade, que reza, conversa e dorme é a Sapeca, a bonequinha de pano. 
A de louça? Acho que nem nome tem, está lá enfeitando sua estante no meio de todas as outras tão ocas e de louça quebrável quanto ela.

Cristiana Passinato