terça-feira, 30 de março de 2010

Estrelinha do S07


Uma manhã de engarrafamento e dia quente no ônibus S07 me irritava, mas no meio desse acaso, no meio de meu sono de caminho pro trabalho, pois são mais ou menos três horas de viagem, ouço e vejo uma senhorinha em pé.
Perguntei-lhe se gostaria de que eu levantasse e ela sentasse, e ela exclamou:

- Não, minha filha, não preciso sentar, não, estou bem, com saúde, graças a Deus...

E ela não parou por aí, discursava sobre a juventude cansada e as senhoras e pessoas de sua época que trabalhavam muito mais e de forma muito mais braçal, contando tudo que havia passado desde menina pra mim.
Foi quando ao meu lado vagou o lugar e fiz questão de a convidar para que sentasse ao meu lado, pois há essa hora já estava interessada e envolvida pela doçura de Dona Dalva.
Dona Dalva, por mim apelidada de minha estrelinha do dia, me falava de seus filhos, de um deles ser especial e dela cuidar de um autista no momento.
Disse ainda que trabalhou desde cedo e que fazia de tudo para deixar seus filhos limpinhos, arrumadinhos e dar estudo a eles, pois o que ela não tinha, ela fazia questão de dar a eles.
Disse que a maior dádiva da vida é a gente abrir as janelas e ver que um novo dia nasceu, que a Natureza está a nossa volta de forma perfeita e harmoniosa, dentro de seu vocabulário e sua sabedoria exprimia que todos os dias agradecia ao Pai a dádiva do dom da vida e que nada que ela passava era em vão ou digno de ser reclamado.
Não havia queixas, só agradecimentos no discurso daquela senhorinha.
Ela me mostrou a foto de um de seus filhos na carteira, me contou de vários feitos e trabalhos, como trocadora, um deles e que ficou amiga de pessoas de posse com sua simpatia e simplicidade, ética e responsabilidade.
Acredito, pois ela era de um polimento e educação... Disse-lhe que não requer dinheiro ou posse para uma pessoa ter berço ou nível e ela fechou assim:

- Minha filha, sou preta, mas não sou suja e nem fedo, não tenho um dente na boca, mas sei sorrir, e nada tenho, mas sei que sou feliz.

Fiquei com lágrimas nos olhos, tive que saltar, nunca mais a vi, mas Dona Dalva, a minha estrelinha, nunca mais será esquecida, eu queria levá-la pra mim, mas não pude.

Cristiana Passinato