quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

A NECESSIDADE DA COMPAIXÃO (Santo Agostinho de Hipona, Confissões)

"Arrebentavam-me os espetáculos teatrais, cheios de imagens das minhas misérias e de alimento próprio para o fogo das minhas paixões. Mas porque quer o homem condoer-se, quando presencia cenas dolorosas e trágicas, se de modo algum deseja suportá-las? Todavia, o espectador anseia por sentir esse sofrimento que, afinal, para ele constituir um prazer. Que é isto senão consumada loucura? Com efeito, tanto mais cada um se comove com tais cenas quanto menos curado se acha de tais afeto (danoso). Mas ao sofrimento próprio chamamos ordinariamente desgraça, e à coparticipação das dores alheias, compaixão. Que compaixão é essa em assuntos fictícios e teatrais, se não induz o espectador a prestar auxílio, mas somente a convida à angústia e a comprazer o autor do espetáculo na proporção da dor que experimenta? E se aquelas tragédias humanas, antigas ou fingidas, se representam de modo a não exercitarem a compaixão, o espectador retira-se enfastiado e criticando. Pelo contrário, se ele se comove, permanece atento e chora de satisfação.

Amamos, portanto, as lágrimas e as dores. Mas todo homem deseja a alegria. Ora, ainda que a ninguém satisfaz ser desgraçado, apraz-nos contudo a ser compadecidos. Não gostaremos nós dessas emoções dolorosas pelo único motivo de que a compaixão é companheira inseparável da dor? A amizade é fonte destas simpatias."

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