sábado, 29 de março de 2014

Maré sitiada


“Os juízes da normalidade estão presentes em todos os lugares. Nós vivemos na sociedade do professor-juiz, do médico-juiz, do educador-juiz, do 'trabalhador social'-juiz.”
“A liberdade de consciência traz mais riscos que a autoridade e o despotismo.” (Foucault).

Essa semana foi complicada na área onde trabalho.
Na especialização, colegas relatando o terror pela presença tão intensa de homens armados no Complexo da Maré.
Discutimos em sala de aula rapidamente o assunto, e um dos meus colegas, um professor, inclusive que dá aulas na minha escola, que mora na favela, relatou um caso interessante. Sua esposa e filha foram abordadas, quando ele e o filho viajaram. Dentro de suas casas, por policiais, elas foram interpeladas e suas privacidades violadas em uma operação. Sim, invadiram a casa da família dele e procurando alguma droga ou armamento saíram porta adentro vasculhando tudo na casa deles. É isso mesmo produção? Está nas regras isso?
Onde nós estamos? Não se tem mais privacidade dentro da comunidade, caso se queira lá morar?
Há tantos estudantes da UFRJ que compram até imóveis e sublocam para fazer tipo uma república e não conseguem mais ter tranquilidade de estudar, pois o terror tomou conta da região.
Não bastando, na terça cheguei na escola e soube de uma espécie de “toque de recolher”. Disseram que ninguém entrava e nem saía da favela depois das 22 h. Por isso, teríamos que fazer um horário especial, para que os alunos saíssem 21 h e 30 min, no máximo e eles pudessem estar em suas casas 22 h, seguros. O que? Seguros? Será?
Soube ainda, na sala dos professores, que um aluno de uma das turmas que leciono foi apedrejado por um menino que invadiu a escola e não era aluno. Resultado, o menino foi atendido todo ensanguentado e com parte do rosto e a boca rasgada pela pedra que o rapaz conseguiu atingi-lo.
Terça, quando cheguei era esse o panorama: as aulas seriam encurtadas por conta desses episódios e toda a operação que fariam na Maré.
Chegando em casa, abri o facebook e vi uma manchete imensa em uma imagem: “Exército entra na Maré com 4 mil homens” e outra ainda dando conta de que: “Maré terá um militar para cada 55 moradores”, como se isso tudo fosse sinônimo de “ordem e segurança”. Isso lembra o quê, minha gente?
Será que estamos à beira de uma guerra civil nas favelas, que constituem grande parte de nossa cidade? As pessoas que moram na favela querem esse tipo de ação? Só tem que ser desse jeito para conseguir coagir o crime organizado e conter os ataques entre as facções e “guerras territoriais” que por lá há?
A questão é tão mais ampla e complexa, que colocar um bando de militares e garantir que essa organização lá está presente demarcando o território com tiros, invasões, agressões não foi, não é e nem será a solução e a maneira a que se vá chegar a algum lugar, não.
Será que voltaremos à época em que era rotina a invasão de privacidade e o tolhimento do direito de ir e vir? Pode ser que comece lá e depois eles comecem a ter necessidade de colocar “ordem e segurança” em outros lugares até tomarem completamente a todos nós.
Essa coisa de que tudo que pune gera ordem é patológico e sabemos que esse tipo de ação é perniciosa e gera máculas e até ulcerações profundas permanentes em uma história.
Até quando erraremos tão feio? 

Aproveito para citar um texto que recebi pelo facebook:

Educação é tudo
Patrícia Konder Lins e Silva
 O ano de 2014 é importante para o país, não por causa da Copa, mas porque vamos escolher quem vai nos governar. Seja quem for, desejamos ver a afirmação da educação escolar como prioridade para todas as crianças brasileiras.
Na escola se desenvolve a capacidade de interpretar o mundo, de pensar ampla e profundamente sobre questões que afetam e afetarão as vidas de todos e de cada um. A educação escolar não deve ser uma mera trilha para a obtenção de diplomas. Educar é formar pessoas comprometidas com o destino da civilização, entendendo civilização como oposição a barbárie.
A explosão de violência a que assistimos resulta de muitas gerações desassistidas, desprezadas pelo estado e pela sociedade. Ninguém nasce criminoso. Diversos fatores levam à transgressão. Entre eles, e não pouco importante, a falta de uma escola.
A solução para a violência não virá com penas mais cruéis, com mais repressão, com diminuição de maioridade penal. Pelo contrário: as prisões, reformatórios ou qualquer desses lugares são escolas de crime. Salvo raras exceções, ninguém sai de lá melhor do que entrou. Não há nenhuma preocupação de educar para o reingresso na vida social e só a educação diminui a violência.
A sociedade tem que gastar sua energia lutando pela escola empenhada no acolhimento às crianças, no esforço para cuidar de seu desenvolvimento, uma escola que acredite nelas, que lhes dê esperança no futuro.
O importante é educar para promover oportunidades que assegurem a inserção na cultura, a convivência produtiva e um lugar digno na sociedade.
É preciso educar para não prender.
Patrícia Konder Lins e Silva é pedagoga e diretora da Escola Parque. Publicou o livro Inteligência se Aprende, pela Editora Casa da Palavra.

Fonte: Coluna da Anna Ramalho do jornal "O Globo" on line. Disponível em: <http://www.annaramalho.com.br/news/amigos-da-anna/patricia-konder-lins-e-silva/28815-educacao.html>. Acesso em: 29/03/2014.