domingo, 27 de abril de 2014

O poder que temos


Quando nos entregamos à solidariedade e à dor do outro, temos um poder: o poder de afagar o amigo em um simples abraço.
Se uma vez não podemos estar no lugar do outro quando sofre alguma dor, e sofremos a dor de quem amamos, temos o poder de olhar para ele e dar significado a sua vida, a sua existência.
Isso não se faz inerte, calado, de um lado de longe olhando, se faz com uma palavra, um gesto de carinho involuntário sem querer nada em troca e com reciprocidade, cumplicidade e honestidade.
Como diz Chalita em um recente texto seu:
"Quem ama, verdadeiramente, sofre com o sofrimento do amado. Mas não temos esse poder."
Realmente, não há como sofrer pelo outro, não podemos arrancar o sofrimento do coração de quem amamos e aliviar todas as dores, até porque elas, então não se transformariam em aprendizados e o crescimento necessário com aquela dor não se efetivaria.
O adeus definitivo da morte é dolorido, mas com o tempo fica a lembrança e essa nos consola e sabe-se que não se verá mais. A dor maior e que não se deve permitir a amigos é a ausência prolongada, o silêncio indefinido e as dúvidas deixando lugar aos ruídos da falta de comunicação acabarem ruindo um laço tão bonito e puro que foi efetivado e que, com a fé dos que acreditam nessa verdade, seja eterno. 
Amizade verdadeira é um amor que nunca acaba, e com certeza é um dos amores mais bonitos que existem, pois realmente, dificilmente amigos de verdade deixam qualquer bobagem separar as mãos unidas um dia pela vida.
Os amigos interessados, interesseiros, com algum intuito em troca na verdade não são amigos e esses na realidade nunca amaram de forma verdadeira, por isso, esse tipo de amizade pode estar fadado a um término a qualquer momento. E, é nesse tipo de relação, que se pode ver uma das partes se cansar e abandonar a outra. Isso dói tanto. Quando ocorre é tão triste.
Ainda aproveitando o que o professor Gabriel Chalita mencionou no último parágrafo de seu último artigo para o jornal "Diário de S.Paulo":
"Bem, se não temos o poder de prolongar a vida, usemos um outro poder. O poder de dar significado à vida. De não desperdiçá-la com bobagens e estranhamentos. Quantas escolhas erradas fazemos. Quantas brigas. Quantas mágoas que cultivamos pela ausência de maturidade. Tempo desperdiçado. Poderíamos nos ocupar de contemplar mais a natureza, de dar mais atenção para uma prosa, de poetizar nossa travessia."
Vamos, então, enquanto vivos celebrar as vidas dos amigos de verdade e perpetuarmos nossos momentos, fazendo-nos presentes, dialógicos e recíprocos, pois é o que vale a pena e o maior tesouro que possuímos, um amor amigo de verdade.