sábado, 10 de outubro de 2015

Um encontro interessante...


Conheci uma jovem hoje no ônibus que me encantou por seu discurso sólido, cheio de personalidade, lutas e sofrimento.
Conheci uma jovem que me deu esperança de que a juventude não está afundada na pasmaceira e na anestesia do consumismo exacerbado ou mesmo a falta de perspectiva com seu futuro.
Ela falou que tem 28 anos, os pais moram na Maré e ela no alojamento da UFRJ e vai todos os dias para a Faculdade de Direito no Centro e que tem muitas dificuldades, passou por diversas lutas, enfrentamentos e sofre preconceitos na Universidade por parte de professores e alunos.
O discurso dela muito se assemelha com uma amiga que tenho que estudou direito na PUC-Rio e é moradora da Rocinha. Lembrei muito dessa amiga, muito mesmo.
Ela me contou o quanto está difícil morar naquele alojamento. Um espaço marginalizado e esquecido no campus da Universidade. Ela citou o problema na parte elétrica no módulo dela. Ela disse que outro dia quase ocorreu um incêndio. A admistração do local nada fez e quase não conseguiu sequer ouvi-los e atendê-los. Falou do problema da segurança, pois entra e sai quem quiser do local. As festas, aquela famosa inversão de valores de que pessoas que não precisariam ali estar, por estarem querendo uma liberdade não vigiada de seus pais, buscam a ida para esse espaço e fazem de antro de drogas, festas, orgias, etc...
Tudo que ela me relatou aliado ao discurso maduro me fizeram não tirar o olho dela um segundo e ouvi-la a viagem quase toda.
Tudo começou quando ela me perguntou se o sol batia do meu lado do ônibus. Depois ela engrenou na vontade dela comer o meu biscoito "Fofura", e ela comendo um sanduichinho (que parecia uma delícia), com maior gosto. Ela degustava um sanduichinho de presunto com pãozinho de leite careca e eu sentindo aquele cheirinho de merenda de escola e um Toddynho e eu comendo fofura e fanta laranja... E ela falando que de vez em quando ela se dava ao luxo de comer uma bobagem como o Fofura.
Pois bem, foi desse simples olhar uma para a outra que acabei me identificando com toda a fala dessa jovem e soube de como ainda existem pessoas determinadas que precisam estudar para viver, que viram do alojamento da UFRJ um abrigo para a violência que passavam na favela, e uma estudante de ideal que se importa com direitos humanos, educação, e causas humanitárias.
Tão lindo ver nos olhos de uma jovem o brilho da esperança e do ideal e não a desesperança com os obstáculos que enfrentou.
A vida dela é difícil, mas ela não desiste de suas lutas pessoais e coletivas, como ela mesma disse: "No momento eu preciso priorizar as minhas demandas individuais, mas já lutei e quero lutar pelas coletivas com força, mas preciso manter minha integridade física e psicológica para conseguir fechar esse ciclo que é o meu curso".
Ela ainda me disse que tem uma avó com início de Alzheimer e precisa cuidar dela.
Eu suspirei ao sair do ônibus e pensei: "e eu ainda reclamando, e eu ainda me sentindo cansada..."
Pois é... Eu dei graças a Deus por ter uma família e uma casa para morar e ter tido de alguma forma paz para conseguir chegar onde cheguei, e espero não esquecer meus ideais e ter força para minhas lutas, tanto pessoais como de minha classe, categoria, que agora pertenço e quero morrer nela: PROFESSORA, com orgulho.
Como gostaria que meus alunos, os jovens por aí se mirassem em espelhos como essas amigas minhas que independente dos preconceitos e dificuldades venceram e estão na luta para vencerem mais e mais.
Minha compania hoje ainda me falou de estudar com filhos de ministros que ingressam com 16 anos na UFRJ e que entram e saem da UFRJ sem menor conhecimento de nada disso e que os seus discursos e práxis são completamente diferentes dos alunos como ela, e que eles sequer os cumprimentam, é como se fossem de outra faculdade, turma e tudo mais.
Triste, pois aprenderiam muito, tanto se humildes fossem, pois a gente só aprende quando se abre pra isso.
É... Jovens assim que me dão orgulho e que me fazem seguir como professora.
Que muitas sejam assim, que muitos ainda pensem e lutem como ela.
É a minha esperança.