domingo, 19 de junho de 2016

Aos que ficaram, texto de Gabriel Chalita, para o jornal Diário de S. Paulo.


O desamor matou mais uma vez. O ódio pareceu vitorioso no triste fim de vidas que buscavam alguma alegria. Era uma boate. Poderia ser um clube. Uma escola. Um cinema. Um prédio de trabalho. Uma praça. Uma rua em que atletas corriam. Esses lugares também foram manchados por radicalismos criminosos. Como virar a página? Como chorar a dor das famílias buscando algumas ações que garantam que outras famílias não enterrem seus mortos, vítimas desses horrores? A palavra do Papa Francisco é sábia. Mais uma vez. A de Barack Obama, também. Já a de Donald Trump, lamentável. O discurso do ódio nunca conseguirá combater o ódio. Violência não se combate com violência. As superficialidades só interessam aos demagogos. Precisamos de um aprofundamento nas causas que geram esses monstruosos crimes. Educamos para o respeito ou para o escárnio? Buscamos uma convivência harmoniosa ou uma disputa desenfreada por saber quem é o melhor? Damos o exemplo da tolerância ou nos julgamos acima dos que imaginamos diferentes de nós? E falo da tolerância no seu sentido mais pleno. A tolerância que significa respeito à riqueza do outro, daquele cuja diferença me ensina, me complementa, me faz melhor. Não é a tolerância em estado dicionário que denota suportar, aturar aquele que pensa, vive e ama diferente de mim. Esse é o significado da tolerância que alimenta o falso sentimento de superioridade em relação ao outro. Não há pessoas de primeira ou segunda categoria. É preciso educar para que se entenda que a diferença é a base da essência humana. Não há duas pessoas iguais no mundo. E a riqueza do homem reside nisso. É preciso, portanto, cuidar da semeadura. Qual é a semente que se planta em casa e na escola? Pais que se agridem plantam qual semente? Pais que agem e falam com preconceito sobre o que veem nas mídias ou nas ruas plantam qual semente? Professores que desconhecem o significado da cooperação em uma sociedade baseada na competição plantam qual semente? Jornalistas ávidos por informações pouco cuidadosas, desconectadas da verdade, capazes de destruir vidas alheias, plantam qual semente? Programas de rádio e televisão cujo ódio pulula na boca de apresentadores que não têm nenhum compromisso com a verdade e com a ética plantam qual semente? Líderes religiosos que propagam o ódio a quem eles consideram pecadores plantam qual semente? Quem mais nos influencia? Redes sociais? Clubes? Shoppings? Parques? Como se comportam as pessoas nesses espaços? Que semente estão plantando? Há uma comoção mundial em tragédias como a de Orlando. E é preciso que haja. A dor do outro deveria doer na gente. Mas, aos que aqui ficaram, é preciso ação. No combate ao terrorismo e a toda forma de violência. Ações de governos e de organismos internacionais. Mas é preciso ir além. É preciso pensar na floresta que queremos amanhã. Ela começa nas sementes que plantamos hoje. Preocupa-me o ódio cotidiano. Os ditos incorretos revestidos, às vezes, de algum humor. O descontrole diante do que pensa diferente de mim. Os ataques de moralidade frente ao outro que julgo ser imoral. Preocupe-me a ausência do amor na convivência. Eu não mato uma namorada por ela ter decidido que não é comigo que ela quer viver. Eu não agrido quem vota em um partido diferente do que eu voto. Eu não espanco o que torce para um time rival ao meu. Não. Essas falsas valentias só nos mostram a covarde face de quem semeia o mal. “Quero cumprir o meu papel, semeando a correta semente “, esse seria um bom começo para os que querem um mundo melhor. Amanhã. E hoje. Gabriel Chalita, para Diário de SPaulo – 19/06/2016

http://www.gabrielchalita.com.br/index.php/o-escritor/textos/item/2113-aos-que-aqui-ficaram.html